segunda-feira, 6 de julho de 2009

O cravo caído



Então ele abriu os olhos, tentou se proteger da claridade colocando suas mãos na frente.
Era engraçado, mas não conseguia tirar aquele sorriso largo do rosto,.
Desde que decidira tomar aquele rumo, muitas coisas ele provou, mas nada era mais delicioso que o gosto do grande dia!
Pedira para estar sozinho naquelas horas e o silêncio na casa confirmava o seu desejo.
Levantou rápido, após a pausa costumeira para se adaptar a luz do dia, tinha muita coisa para fazer.
Ao lavar o rosto, se deteve alguns instantes no espelho, observou: aquele lhe parecia seu olhar mais plácido.
Passou a mão na camisa que estava passada no cabide desde a noite anterior, escolheu com carinho a cor da gravata, a ocasião pedia azul! Terminou de se trocar, tirou os sapatos novos da caixa, sondou se a cor da meia estava ok, puxou o terno do closet, antes de sair voltou mais uma vez para checar a composição. Era certeiro! Deu uma gargalhada, ajeitou os cabelos, pegou com confiança a carteira, o lenço, o cravo e as chaves em cima da cômoda e saiu.
Passou pela cozinha, engoliu um copo de café requentado do dia anterior, abriu o armário, pegou três ou quatro avelãs, quando saia da cozinha voltou a fruteira para se suprir de duas nectarinas e um pêssego amarelinho que havia ganhado dela em uma linda cesta de frutas.
Antes de sair de casa, olhou para trás lançou um suspiro e partiu.
No trajeto, seu pensamento não parava um minuto (o celular também não!), a alegria era tão grande quanto o frio que tomava conta do seu estômago, daria cabo de algo tão novo?
As noitadas de boemia, as listas de experiências femininas (tinha um hábito de tomar nota, em seu diário, de cada mulher que atravessava sua vida), a geladeira cheia de cerveja - e vazia de comida, o café requentado, a pizza amanhecida, as dezenas de presentes e recados recebidos daquelas que havia deixado saudade, os dias de poker no meio da casa, o cigarro e suas marcas no sofá... estava abrindo mão.
Abria mão, mas estava se sentindo tão leve que mostrava uma liberdade de espírito capaz de tornar qualquer atividade lembrada em simples acontecimentos sem cores.
Buzinas estridentes cortaram o som do rádio, o sinal abrira, virou a esquerda e já avistou o local, estava enfeitado com balões na entrada, muitos carros já se encontravam no local, reconheceu todos seus amigos ali, aqueles amigos que lhe foram especiais e que havia escolhido a dedo para compartilhar esta dia.
Só não sabia que sua escolha não teria vazão.
Em um repente sentiu uma forte dor no peito, achou que era má respiração, puxou fundo o ar e soltou vagarozamente. Desceu do carro e enquanto subia a escadaria, sendo interrompido por tantos a lhe abraçar, percebeu o braço direito adormecido. Pediu um pouco de água para sua mãe, lindíssima em um longo esverdeado, passou a mão sobre o rosto e sentiu a testa molhada mesmo estando em meio aos ventos da primavera! Enquanto tomava aquela água fresca em grandes goladas, a dor voltou só que agora uma pontada mais parecida com um rasgo no peito.
O carro dela já estava na esquina, aguardando. Só pode ver o vulto do seu perfil por detrás do filme na janela, sabia que aquele perfil seria parte integrante de seus dias e autor de incansáveis alegrias. Acenou, sorriu, fechou os olhos, deu um pequeno gemido de dor...
Caiu no chão, sentiu sua cabeça batendo na quina do último degrau, o cravo saltou do seu bolso e tudo escureceu.

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