domingo, 12 de julho de 2009

A rosa sem pétalas




Seu pai lhe deu um beijo na testa: "Você está linda!". Com os olhos lacrimejados ela entrou no carro, ajeitou o vestido, colocou o buquet de rosas cuidadosamente em seu colo, ajeitou sua franja e viu o carro tomar o trajeto.

O dia estava lindo, as árvores no caminho repletas de flores, a primavera declarava não só a beleza da natureza, mas a surgimento de novas transformações na vida. Quando seu sim foi certeiro ela sabia que tudo iria mudar, pois sabia que era pra sempre. Era com ele que ela gostaria de estar quando acordasse nas manhãs gélidas do inverno e muitos planos e sonhos que criara desde pequena só fariam sentido com a presença dele.

Hoje era seu dia e a alegria era tamanha que nem sequer cogitara a possibilidade das luzes se apagarem.

O carro já tomava a avenida principal e ao longe ela podia ver uma movimentação, carros estacionando, pessoas atravessando a rua, pelo retrovisor podia perceber o olhar de seu pai com aquele orgulho contagiante, retocou o batom. "Chegamos querida, fique tranquila e tenha certeza de que este dia é todo seu!"
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Enquanto aguardava o tempo certo para sentir a brisa de fora do carro, avistou seu companheiro, estava tão lindo! Enquanto ele subia as escadarias e parava para cumprimentar seus amigos, ela cada vez mais tinha certeza de que era ele! E tudo aquilo lhe dava uma paz tão grande! Ele então olhou para trás, ao ver seu carro parado com certa distância, acenou com aquele sorriso largo que só ele sabia lhe dar, aquele mesmo sorriso por qual se apaixonara quando se encontraram pela primeira vez em uma festa de amigos em comum, e isso já fazia tanto tempo, mas estava guardado na sua mente como se acontecesse no mês passado!

Ela suspirou e retribui o sorriso, não tão largo mas o sorriso mais doce que ela já havia deixado em seu rosto. Sabia que era questão de tempo.

No seu campo de visão só se concentrava nele e exatamente através desta concentração que ela percebeu quando ele levou a mão no peito e soltou um pequeno grito de dor.

Não!

Já era tarde demais. Assistindo da janela do carro - a poucos metros da igreja - a queda de seu escolhido, ela só conseguiu emitir um soluço que engolira todas as arestas e arremates de sua felicidade. Esmagou as rosas em seu colo, enquanto os espinhos lhe sangravam a pele, lágrimas derramavam e lavavam seu rosto, caindo e se misturando ao escarlate presente em suas mãos.
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segunda-feira, 6 de julho de 2009

O cravo caído



Então ele abriu os olhos, tentou se proteger da claridade colocando suas mãos na frente.
Era engraçado, mas não conseguia tirar aquele sorriso largo do rosto,.
Desde que decidira tomar aquele rumo, muitas coisas ele provou, mas nada era mais delicioso que o gosto do grande dia!
Pedira para estar sozinho naquelas horas e o silêncio na casa confirmava o seu desejo.
Levantou rápido, após a pausa costumeira para se adaptar a luz do dia, tinha muita coisa para fazer.
Ao lavar o rosto, se deteve alguns instantes no espelho, observou: aquele lhe parecia seu olhar mais plácido.
Passou a mão na camisa que estava passada no cabide desde a noite anterior, escolheu com carinho a cor da gravata, a ocasião pedia azul! Terminou de se trocar, tirou os sapatos novos da caixa, sondou se a cor da meia estava ok, puxou o terno do closet, antes de sair voltou mais uma vez para checar a composição. Era certeiro! Deu uma gargalhada, ajeitou os cabelos, pegou com confiança a carteira, o lenço, o cravo e as chaves em cima da cômoda e saiu.
Passou pela cozinha, engoliu um copo de café requentado do dia anterior, abriu o armário, pegou três ou quatro avelãs, quando saia da cozinha voltou a fruteira para se suprir de duas nectarinas e um pêssego amarelinho que havia ganhado dela em uma linda cesta de frutas.
Antes de sair de casa, olhou para trás lançou um suspiro e partiu.
No trajeto, seu pensamento não parava um minuto (o celular também não!), a alegria era tão grande quanto o frio que tomava conta do seu estômago, daria cabo de algo tão novo?
As noitadas de boemia, as listas de experiências femininas (tinha um hábito de tomar nota, em seu diário, de cada mulher que atravessava sua vida), a geladeira cheia de cerveja - e vazia de comida, o café requentado, a pizza amanhecida, as dezenas de presentes e recados recebidos daquelas que havia deixado saudade, os dias de poker no meio da casa, o cigarro e suas marcas no sofá... estava abrindo mão.
Abria mão, mas estava se sentindo tão leve que mostrava uma liberdade de espírito capaz de tornar qualquer atividade lembrada em simples acontecimentos sem cores.
Buzinas estridentes cortaram o som do rádio, o sinal abrira, virou a esquerda e já avistou o local, estava enfeitado com balões na entrada, muitos carros já se encontravam no local, reconheceu todos seus amigos ali, aqueles amigos que lhe foram especiais e que havia escolhido a dedo para compartilhar esta dia.
Só não sabia que sua escolha não teria vazão.
Em um repente sentiu uma forte dor no peito, achou que era má respiração, puxou fundo o ar e soltou vagarozamente. Desceu do carro e enquanto subia a escadaria, sendo interrompido por tantos a lhe abraçar, percebeu o braço direito adormecido. Pediu um pouco de água para sua mãe, lindíssima em um longo esverdeado, passou a mão sobre o rosto e sentiu a testa molhada mesmo estando em meio aos ventos da primavera! Enquanto tomava aquela água fresca em grandes goladas, a dor voltou só que agora uma pontada mais parecida com um rasgo no peito.
O carro dela já estava na esquina, aguardando. Só pode ver o vulto do seu perfil por detrás do filme na janela, sabia que aquele perfil seria parte integrante de seus dias e autor de incansáveis alegrias. Acenou, sorriu, fechou os olhos, deu um pequeno gemido de dor...
Caiu no chão, sentiu sua cabeça batendo na quina do último degrau, o cravo saltou do seu bolso e tudo escureceu.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Quando se foi.

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Os interesses mudam, as pessoas se transformam, os arremates não são mais tão calorosos...
Crescer dói, perder dói, deixar morrer dói.
O desconcerto vem tão rápido quanto os intervalos em séries delirantes.
A dúvida se instala novamente.
Chega e se espalha toda, tomando lugar daquele vazio que faz a essência (mais serena) gritar.
Mas não preenche o espaço da clareira, que se reserva aguardando o momento exato do encontro.
E o encontro não acontece, o que acontece são as lembranças que não lhe causam mais suspiros, mas que mesmo assim, a deixam estremecer.
A dor não se nega, está estampada no seu rosto, mas ela continua clara...
Se perde na tentativa de encontrar algum sentido em tudo isso.
E nesta perdição ela lastima o "deixe ir", porque na realidade ela não queria ter ido, não queria ter mudado, se transformado, perdido, crescido, deixado morrer.
Era mais confortável estar onde era arrematada.
Hoje o arremate se faz em outra... mais um arremate em outra...
E ela permanece ali, vazia.